A ‘OPERAÇÃO BIKINI’ DOS BALANÇOS: O DESAFIO SUPREMO DOS BANCOS CENTRAIS

19 de julho de 2017

A ‘OPERAÇÃO BIKINI’ DOS BALANÇOS: O DESAFIO SUPREMO DOS BANCOS CENTRAIS

Os grandes problemas requerem soluções à sua altura. E têm consequências que não são exatamente pequenas. É o que acontece com os bancos centrais, que depois de quase uma década de esforços imparáveis, com medidas monetárias sem precedentes para combater a maior crise desde a 'Grande Depressão', têm agora de encarar o caminho de volta. Este recuo será o autêntico “teste do algodão” da recuperação económica. Será a prova de fogo para perceber até que ponto é artificial, e está suportada apenas pela extraordinária ajuda dos 'money lords”, ou seja, senhores do dinheiro e do poder, ou é real, e apoia-se nas raízes sólidas dos resultados e investimentos empresariais, do consumo privado e do mercado laboral.

Desta vez, o desafio é maior precisamente devido a quão longe os bancos centrais levaram as suas políticas. Noutros ciclos, primeiro baixavam as taxas de juros para lutar contra a contração económica e apenas depois, quando a situação se invertia, voltavam a subi-las. Agora subir os juros não será suficiente, pois estas mudanças não foram, em todo o caso, suficientes para reverter os efeitos da 'Grande Recessão' e dos graves problemas financeiros posteriores à falência do Lehman Brothers. Reforçaram as suas políticas com compras massivas de ativos financeiros no mercado, um recurso que está ao seu dispor e ao qual, contudo, nunca haviam recorrido desta forma e com esta magnitude.

Estas aquisições proporcionaram ao sistema uma liquidez abundante, que não só tem servido para evitar males maiores ao setor bancário, mas que também restabeleceu os mercados. Esta liquidez é, sem dúvida, a responsável pelos máximos históricos registados nos últimos anos nos títulos de rendimento variável, sendo os índices de ações dos EUA os principais estandartes destes, e também nos títulos de rendimento fixo, tanto públicos como privados – e tanto aqueles relacionados com o grau de investimento como os de alto rendimento. Um dado: em julho, e segundo dados da Bloomberg, a capitalização na bolsa mundial atingiu um novo máximo histórico acima dos 76 biliões de dólares – cerca de 67 biliões de euros.

É por esta razão que o desafio é tão grande. Porque a recuperação dos mercados tem sido fundamental para a recuperação da economia, devido ao efeito de riqueza gerado e pela facilidade na aquisição de financiamento para as empresas. Além disso, os bancos centrais vão começar agora a retirar liquidez, que tem sido o catalisador fundamental da sua ressurreição, e que se tem registado não em dezenas ou centenas de milhares de milhões de euros, mas sim em biliões, tal como demonstram os balanços dos dois grandes bancos centrais mundiais.

No início de agosto de 2007, um pouco antes das primeiras intervenções de urgência dos bancos centrais, o balanço da Reserva Federal (Fed) dos Estados Unidos limitava-se a 0,87 biliões de dólares. Agora – embora seja assim desde 2014 – esse equilíbrio atinge os 4,5 biliões de dólares. No caso do Banco Central Europeu (BCE), o seu balanço aumentou consideravelmente, de 1,2 até 4,2 biliões de euros, e irá crescer ainda mais porque, pelo menos até ao final de 2017, irá dedicar 60.000 milhões de euros mensais para continuar a comprar dívida no mercado. Esta liquidez adicional, proveniente das rondas de harmonização financeira quantitativa (Quantitative Easing ou QE, na sua sigla em inglês) que foram executadas na década passada, têm alimentado as cotações.

São os casos mais significativos, mas não são os únicos. Até porque estes números, combinados com os dos restantes bancos centrais, apontam para consequências que são, além de notórias, potencialmente perigosas. O Banco de Pagamentos Internacionais (BIS, na sua sigla em inglês) recolhe vários dados que apontam nessa direção. O 'Banco dos bancos centrais' estima que, entre 2009 e 2016, o volume de crédito em dólares atribuído a empresas que não são norte-americanas cresceu cerca de 50 %, atingindo os 10,5 biliões de dólares – cerca de 9,2 biliões de euros. Ou o facto de que também se duplicou a percentagem de 'empresas zombie' no mesmo período, atingindo uma percentagem de 10,5 %, isto é, aquelas empresas cujo benefício operativo não cobre os seus gastos financeiros, um aumento que se deve, em parte, às alegres políticas monetárias que aumentaram a sua 'não-vida', algo que rouba recursos a outras empresas que estão, elas sim, efetivamente vivas. Sem esquecer, é claro, que as extraordinárias políticas monetárias dos bancos centrais têm incentivado a geração de dívida. De acordo com o 'Monitor da Dívida Global', lançado em junho pelo Instituto Internacional de Finanças (IIF), o montante de dívida total já atingiu os 217 biliões de dólares – cerca de 190 biliões de euros, um volume sem precedentes e já equivalente a 327 % do Produto Interno Bruto (PIB) mundial.

Por isso agora, quando se trata de voltar atrás, a 'operação bikini' dos balanços exigirá o maior dos cuidados por parte dos bancos centrais. Se exagerarem, irão arruinar a recuperação. Se não fizerem o suficiente, irão dar azo a novos excessos nos mercados e no universo financeiro.

A dieta chegará em breve. Por agora, e pelo que realmente se pretende que vá por diante no ciclo, – de facto, os EUA têm vindo a crescer de forma constante desde junho de 2007 e o banco central aumentou as taxas de juro quatro vezes desde o final de 2015 – o Fed já anunciou a sua intenção de começar a reduzir o seu balanço na reta final de 2017. Quanto ao BCE, a sua vez chegará em 2018, que será quando vai começar a reduzir o ritmo de compras mensais, até que as retire por completo. Mas espera-se que prepare o caminho para essa redução progressiva, conhecido como 'tapering', também no final de 2017.

Simultaneamente, tanto o BCE como outros grandes bancos centrais, como o Banco de Inglaterra ou o Banco do Canadá, que em julho aumentaram as taxas de juros pela primeira vez desde 2010, irão também desencadear as alavancagens convencionais. Ou seja, as taxas de juros. Para as elevar, é claro. Não são esperados, de modo algum, aumentos radicais, mas sim graduais; porém, não restam dúvidas de que a ação conjunta desta retirada gradual dos estímulos mais extraordinários e de um aumento dos juros irão certamente representar uma prova de fogo para os mercados. E, como seria de esperar, para a recuperação, promovida por condições monetárias incomparáveis.

É bom, sem dúvida, que seja assim. Que os bancos centrais aspirem a normalizar o que era extraordinário demonstra que podem finalmente fazê-lo. Ou, o que vai dar ao mesmo, que o paciente já está pronto. Mas falta o mais difícil. Saber quando e quanto mudar a sua dieta. E que consequências resultarão desta. Um desafio supremo. À altura da crise.

 

Licenciado em Jornalismo e Doutorado em Comunicação pela Universidade de Navarra, Pedro Calvo é atualmente o diretor da Bolsamanía, tendo trabalhado anteriormente no El Confidencial, onde foi responsável pela secção de Economia e Mercados, tendo trabalhado também nos jornais diários de informação económica El Economista e Expansión, onde tratava da informação respeitante aos bancos centrais, moedas e macroeconomia. É autor do livro "Gowex, la gran estafa" (Deusto).