Reconstruindo a economia

13 de outubro de 2017

Reconstruindo a economia

O ano de 2017 está a ser um ano muito positivo para a economia portuguesa, ou pelo menos isso é o que nos dizem os números, neste momento. No primeiro semestre do ano, de acordo com os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), a economia cresceu 2,8%, o melhor resultado registado desde o ano 2000. E para o conjunto de 2017, as previsões apontam para 2,5%. O PIB cresceu 1,4% em 2016 e para este ano a Comissão estima um avanço de 1,8%.

Outro aspeto mais importante é a diminuição da taxa de desemprego. No segundo semestre do ano situou-se em 8,8%, com menos de meio milhão de desempregados em todo o país. Há não muito tempo, em 2013, a referida taxa chegou a rondar os 17%, com 920.000 desempregados. Parte desta recuperação é devida ao turismo que tão bons resultados está a colher. Nos primeiros sete meses de 2017 foram criados 52.000 postos de trabalho neste sector e desde janeiro do ano passado, o emprego no sector cresceu cerca de 25%, o que prova a dinâmica de crescimento do turismo e o seu papel no emprego e na economia.

Num contexto favorável não há que esquecer que 2016 foi um ano difícil para o Governo, atendendo à necessidade de encontrar o equilíbrio necessário que lhe permitisse cumprir com as exigências europeias e, por seu turno, manter contentes os partidos da esquerda (PCP, PEV e Bloco de Esquerda). Mas apesar da pressão existente, foram atingidos feitos importantes. Por um lado, tal como fez Espanha, conseguiu-se fintar as sanções europeias e, por outro, perante a surpresa do próprio Executivo, o ano acabou com um défice de 2%, o mais baixo da democracia. Para este exercício é esperado 1,5%.

Investimento público e privado

Mas nem tudo é positivo quando analisamos a fundo os diferentes aspetos macroeconómicos. Portugal foi em 2016 o país da UE com menor investimento público, 1,5% do PIB, longe da média europeia de 2,7% (segundo dados do Eurostat). A referida fonte indica que em 2015 e 2016 a despesa pública baixou um pouco mais do que 6.260 milhões de euros, o que se traduziu num ajuste de 7% do orçamento.

Para além disso, o país é o quarto do mundo no que respeita ao volume de dívida (com 130,4% do PIB em 2016), atrás do Japão, Grécia e Líbano. Este ano o Governo espera reduzir a dívida para 127,7% do PIB, a maior descida em duas décadas.

Existem várias circunstâncias que fizeram agravar a falta de investimento, tal como o elevado nível de endividamento das empresas e das famílias. Por outro lado, estão as restrições orçamentais do Estado, onde se confirma o baixo nível de investimento público, sem esquecer as fragilidades da banca. Tudo isto influencia a perda de potenciais investidores estrangeiros, embora existam motivos para se pensar que esta situação esteja para mudar a médio prazo. As perspetivas para o investimento privado são boas, graças a outra das grandes notícias económicas de 2017. E ainda, Bolsa está a ser a mais rentável da Europa este ano e até agora,  período no qual já acumula uma rentabilidade consistente superior a 10%.

Onde parece não existirem problemas com os investidores é no mundo imobiliário, atingindo valores recorde: no ano de 2016 foram superados os 1.300 milhões de euros, e para 2017 a expetativa é a de atingir um novo recorde de investimento, os 3.000 milhões de euros. E apenas 10% deste investimento é de capital nacional.

Alternativas ao investimento bancário

A banca continua a estar no ponto de mira. O Estado teve que injetar este ano 2.500 milhões de euros na Caixa Geral de Depósitos, com um aumento de capital. Conseguir créditos pode ser uma tarefa difícil para muitas empresas que cada vez mais procuram alternativas fora do país para reduzir a sua dependência do crédito bancário mas, sobretudo, para estarem mais protegidas perante possíveis novos choques financeiros. No caso de emissões de obrigações de rendimento fixo existe um bom exemplo, embora não seja o primeiro, o da empresa do ramo alimentar Sugal que em 2016 realizou uma emissão de dívida a três anos no montante de 23 milhões de euros no mercado alternativo de rendimento fixo (o espanhol MARF). Um ano antes tinha colocado 42 milhões de euros a uma taxa de juro de 4,25%. Fê-lo através da sua filial OCII BV através de emissão de obrigações com ónus no programa de emissão de valores de 80 milhões de euros que tem registado no MARF com vencimento em 2019 e um cupão fixo anual de 3%. Para a sua entrada no MARF, a Sugal confiou na Axesor, que lhe atribuiu um rating BBB com tendência estável. Por outro lado, o Banco Fintia entrou indiretamente no MARF em 2014 com uma emissão de obrigações de 30 mihões de euros da construtora espanhola Copasa, outra empresa que também confiou na Axesor, que lhe concedeu um rating BB com tendência estável.

Apesar de existir um certo otimismo e de se falar no “milagre da economia lusa”, existe também um certo receio perante o que pode ocorrer no futuro, porque existem fatores externos que não se podem controlar. Terá influência, por exemplo, a saída do Reino Unido da União Europeia e mesmo a política monetária e económica dos EUA. Existem também males crónicos, como o elevado endividamento do sector público e do sector privado e o baixo crescimento potencial da economia que continuam a representar riscos para a estabilidade financeira. O tempo dirá se as bases para reconstruir a economia foram sólidas.

Licenciada em Jornalismo pela Universidade Complutense de Madrid e em História pela UNED, Belén Rodrigo colabora atualmente com diversos meios de comunicação em Espanha e Portugal, entre eles a ABC e o Diário de Notícias. Dirige ainda a revista ACTUALIDAD€ Economia Ibérica. Durante 14 anos foi correspondente da ABC em Lisboa, a partir de onde trabalhou também para a Onda Cero, AS e Agencia Colpisa. Na sua passagem por Portugal presidiu por duas vezes a Associação de Imprensa Estrangeira (AIEP).